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O Walkman e o individualismo moderno

Da quarentena ao admirável mundo novo! Amigo navegante de quarentena, quem diria em sã consciência que há muitas décadas atrás os aparelhos celulares teriam mais capacidade de computação do que o primeiro foguete lançado à lua. Acontecimento esse tido como um grande marco da humanidade. Quem diria que as brincadeiras de escondeesconde e pega-pega, pião, bola de meia, de gude, carrinho de rolimã, as provas rodadas em mimeógrafos, e a folha de papel almaço dariam lugar a todos os recursos em mãos, por intermédio de smartphones, tablets e videogames de fiel resolução e realidade. Adeus Atari e Master System de 8bits, hoje, obsoletos, e bem-vindo ao mundo de Xbox e Playstation, e seus cenários e jogabilidade reais. O que as pessoas mais valorizam em suas vidas? Se for certo que cada pessoa sente e valoriza objetos diferentes, também é certo que tais escolhas e valores são marcados culturalmente, pela época e lugar que vivemos, pela sociedade a qual fazemos parte. Este reles mortal desempregado que vos fala, não pode reclamar, pois em boa parte de sua vida, introspectivo, às vezes introvertido e tímido, com medo e vergonha da própria sombra, avesso a festas, multidões, teve nos recursos modernos uma forma de colocar para fora seu potencial comunicativo e extrovertido. O MSN, o Orkut possibilitaram-me um gatilho de mais interação social e de conhecimento de vivência. Ainda que esse tempo consumido tenha tirado em boa parte o propósito de leitura. Pois sim, na época da vovó as pessoas liam mais, tinham mais tempo para si e menos para vícios e dependências pós-modernas. Os avanços tecnológicos geram desconforto aos mais antigos, insegurança e, em alguns casos, muito medo. Rupturas mexem com o status quo e tiram o ser humano da zona de conforto. Toda essa preocupação leva-me a década de 80, com a lembrança do avanço do Walkman. A preocupação com o futuro dos jovens já que aquela tecnologia criava barreiras invisíveis às relações interpessoais aos destruir a possibilidade de conversas e tornava pessoas irrelevantes para outras pessoas. Que sociedade estava sendo criada por meio desse comportamento aparentemente nocivo? O repudio e a preocupação vinha de encontro ao estímulo do excesso de individualismo e isolamento causados por essa onda. “Eu ‘tava’ só, sozinho, mais solitário que um paulistano”, a licença poética reproduzida na música telegrama, de Zeca Baleiro, remonta os atuais dias depressivos em meio aos aplicativos de relacionamentos e as mídias sociais, mundo virtual x mundo real. Ser ou ter? Eis a questão sobre o vazio da sociedade contemporânea. Infeliz na vida e feliz nas redes sociais. Na sociedade contemporânea, chamada sociedade de consumo, podemos dizer que o valor dominante é atravessado cada vez mais pelo discurso do Ter. Ter propriedades, posses, mercadorias, dinheiro, status, poder. Ter carro do ano, roupa de grife, o celular mais moderno. O trabalho bem remunerado é mais valorizado que o trabalho que traz satisfação, afinal, trabalho deve proporcionar aos indivíduos meios para ter e não para tornar-se o que se é. Como na fábula de “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry, onde o principezinho se depara com personagens que absorvidos demais por seus afazeres e crenças pessoais não conseguem enxergar nada além de si, assim, uma alusão à sociedade atual marcada cada vez mais pelo individualismo. Este romance nos apresenta personagens cheios de simbolismos: o rei, que apesar de isolado tenta manter seu status e continua fingindo dar ordens (atualíssimo); o vaidoso, que só escuta o que lhe agrada e se fecha em si mesmo; o contador, que só pensa em possuir, acumular, mesmo que não entenda o propósito ou finalidade de tais objetos; o acendedor de lampião, que apesar de uma ocupação útil está tão absorvido por esta que não vê a vida passar; e o sábio, que apesar de muito conhecer, pouco sabe do que se passa ao seu redor. O jovem regente olha tudo com estranhamento e se espanta ao concluir como “nós adultos” damos importância a coisas que são inúteis, e como tudo isto nos leva a solidão, ainda quem em meio às centenas de pessoas. Fato que me alude a uma fase da vida em que fiz a transição de uma escola antiga de bairro, para uma mais conceituada e elitizada. Uma mudança significante no que diz respeito a um número muito maior de alunos, uma visão de mundo totalmente diferente focada na competição e na individualidade. Ao sair dos livros didáticos para as apostilas de vestibular, seu tempo passa a ser mais escasso, e a responsabilidade com resultados muito maiores, a quantidade de exercícios são infindáveis e mostrar superioridade é inevitável. Os mais aptos sobrevivem. Lembro-me de minha avó, que quando criança incentivava-me com jogos de montagem, quebra-cabeças e leituras de contos infantis; os fins de domingo eram assim. Ela contava que em sua época as aulas eram retomadas depois de merecidas férias no dia 1 de março. Era importante brincar, viajar, interagir, tanto quanto estudar; a velocidade era outra, o tempo passava mais devagar. Hoje, o mundo moderno obriga os pais a colocar as crianças na creche, enquanto as outras fazem diversas atividades durante o dia. Escola de idiomas, judô, aulas de música, enquanto os pais trabalham o dia todo; é o tempo que não se dispõe. Pais e filhos mal se enxergam. As relações, portanto, são mais frias, instáveis, mesquinhas, os valores sentimentais e o senso coletivo perdem-se diante de um mundo materialista que não pode parar. Crianças agindo como adultos mimados que futuramente ignorarão a velhice dos pais. O que deveriam ter de maior valor é abandonado, e assim no futuro, conforme foram ensinadas, serão capazes de também abandonar. O dinheiro e a economia têm de girar, e isso não tem de atrapalhar. Não é sem razão que a intensificação da presença das tecnologias no ambiente escolar e, agora, a adoção da educação remota e o aumento do empresariado na educação tragam insegurança aos professores. Esse sentimento me faz lembrar os estudos sobre a resistência dos trabalhadores urbanos e rurais ingleses, na passagem do século XVIII para o XIX, em relação à adoção das máquinas e à mecanização do trabalho. Por um longo período, houve uma resistência mais ou menos organizada contra a mecanização do trabalho porque isso, dentre outras coisas, trazia pobreza, desemprego e morte. O título a que me refiro é “Capitão Swing”, um nome que certamente desperta conotações interessantes, embora Eric J. Hobsbawm e George Rudé nada escrevem de frívolo ou cômico, mas o retrato de uma formidável lição de história com interesse em desvendar a vida social e um movimento político de suma importância na vida econômica, política e ideológica da Inglaterra do século XIX. Pois o Swing, aqui, refere-se precisamente à revolta ocorrida em 1830, onde um movimento, liderado por um lendário Capitão Swing, reagia numa de suas resistências mais específicas, contra uma máquina de descaroçar algodão, que deixava os camponeses sem trabalho e passando fome no inverno. O mundo atual se transformou de forma tão acelerada que começou a abalar as certezas cultivadas ao longo do século passado. Foi-se o tempo do emprego estável, da economia próspera e do descaso com o meio ambiente. Fórmulas consagradas para ser bem-sucedido perderam a credibilidade. Entraram em cena preocupações dignas de filmes de ficção científica: os robôs substituirão a força de trabalho humana? A internet será a ligação de tudo em nossa vida? Criaremos relações virtuais e artificiais com nossos semelhantes? Enfim, as transformações mundanas foram muito mais profundas do que é percebido pelo senso comum. Vão além do poder de consumir qualquer conteúdo em qualquer lugar e momento. Ou ainda da possibilidade de encontrar um motorista no momento que desejar a um clique. As minorias ganharam voz, autonomia, e amor próprio. Passaram a existir e não querem mais se esconder. Cansadas de serem execradas e marginalizadas. São também famílias; são gente. A primeira reação da sociedade ao novo, por via de regra, é o estranhamento, o afastamento e, por que não dizer, muitas vezes, a negação da transformação. Seguramente esse não é o caminho para protagonizar a transformação. O primeiro passo para lidar com fenômenos desconhecidos é ter a abertura para entender sua profundidade e o desprendimento para considerar seu potencial de transformação. Não é um processo fácil, ao contrário, de grande complexidade e, talvez, seja um dos maiores desafios da sociedade contemporânea, já que a velocidade das mudanças é latente. Como a história comprovou posteriormente, o Walkman não foi à causa e sim uma das consequências de uma necessidade latente das pessoas terem seu próprio espaço e se expressarem como indivíduos. O lançamento desse aparelhinho foi o início de um movimento avassalador que culminou com a valorização da indústria fonográfica chegando aos dias atuais com os serviços de streaming de música como Spotify, Deezer entre outros. Deveríamos assim como o pequeno príncipe lançar por vezes um olhar de estranhamento sobre nós mesmos. Assim como os personagens de SaintExupéry por vezes nos vemos valorizando exageradamente coisas que em sua essência são inúteis; insistindo em atividades socialmente aceitas, mas que não estão de acordo com nossos valores e que por fim, nos adoecem; possuindo objetos, sentimentos, relações que já não sabemos mais para que nos sirvam; mantendo as aparências para preservar um status que já não nos cabe mais. Nesse contexto, a vida torna-se volátil, as relações tornam-se fluidas. Em uma sociedade marcada pelo efêmero, pelo apelo ao consumo, aqueles que não têm, querem parecer ter e desta forma, a pós-modernidade promove o culto às aparências e o ter torna-se um fim em si mesmo, alienando o sujeito de si. Isto não ocorre sem prejuízos, sem que se pague um preço, às vezes caro, à saúde psíquica. Alguém que se aliena de si mesmo facilmente substitui o “ser pelo ter”, e em lugar de afetos, vivências, relações, falseia a própria existência, construindo simulacros de vida. A felicidade buscada pode dar lugar a sentimento de vazio existencial e falta de sentido, e, por este motivo, a melancolia, depressão e ansiedade têm se apresentado como doenças características da sociedade contemporânea. O ‘ter’ saudável só se dá quando é reflexo de um ‘ser’ que se reconhece, de um ser autêntico. Uma vida edificada sobre um ser alienado produz aprisionamento, e a angústia que não é elaborada produz adoecimento. O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo, muitas vezes doloroso de expansão psíquica, mas ao fim libertador, pois, a única verdade capaz de transformar é aquela que desnuda a mentira escondida em nós. Conhecendo a si mesmo é possível conhecer além; o essencial, como disse Saint-Exupéry, é realmente invisível aos olhos. Podemos correlacionar o reconhecimento da identidade a passagem da mecanização do campo, afinal, o estudo mostrou, também, que os trabalhadores ingleses sabiam estar em jogo com todas as suas culturas, seus saberes, seus modos de vida e de sobrevivência, e buscavam lutar contra as ameaças com as armas que tinham. Os autores realizaram, portanto, uma análise deste episódio básico da vida inglesa, quando transformações sociais, econômicas e políticas radicais mudavam a estrutura social do país. Da quebra de máquinas à resistência às novas tecnologias: os professores de hoje seriam os novos Capitães Swings? Convém ficarmos atento diante de notícias de resistência à adoção de novas tecnologias como nas já populares discussões sobre as perspectivas nocivas das empresas de transporte e entrega por aplicativo. A discussão que circunda em torno de Ifood, Uber Eats, Rappi e outras empresas de intermediação de serviços, que apesar de serem uma alternativa de renda para milhões de desempregados - em meio a pior recessão da história do país diante de uma crise sanitária - colaboram para a precarização do trabalho, condições dos entregadores e taxas cobradas. Euforia inicial que dá lugar à frustração de trabalhadores, em um cenário que deve se complicar com novas transformações. Devemos, portanto, nos ater a importância da vida, a essência das pessoas. O momento de pandemia nos revela o que estava escondido dentro de nós mesmos, e nos dá uma chance de mudarmos. A vida ou a economia? Ou será que a preservação da vida nos leva a uma economia próspera? A dinâmica é mais profunda do que se enxerga a olho nu. Não é possível vislumbrar um futuro incerto, por outro lado, é possível aprender com o passado, entender nossas limitações como seres humanos e colocar em xeque todas as certezas pré-concebidas. Bem vindo ao admirável mundo novo!

 
 
 

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